SANTUÁRIO 

 


 

Voluntariado 
 

1. O Serviço Voluntário: uma resposta adequada

Somos feitos para sair de nós. É contra-natura a tendência individualista da sociedade contemporânea. Por isso, cada vez mais, dentro da Igreja e também fora dela, surgem propostas de gratuidade contra a corrente dominante, como que respondendo a um impulso do coração humano.

Foi assim em Fátima. Os primeiros a servir os peregrinos moviam-se por uma compaixão, no mais nobre significado desta palavra. Compartilhavam com os peregrinos a comoção por aqueles acontecimentos, uma vez presenciados e muitas outras lembrados e celebrados. Mas, sobretudo, tinham em comum com aqueles a quem serviam a razão, o motivo de ali acorrerem: a Fé.

E foi tão claro o valor desta experiência de gratuidade, que sete anos depois das Aparições – e seis antes de Fátima ser reconhecida como lugar de culto – era criada pelo Bispo de Leiria a Associação dos Servos de Nossa Senhora de Fátima, para dar corpo a esse movimento voluntário.

Recordamos com muito carinho esse gesto e essa data, que são, para nós, Servitas, fundadores do que somos. Mas, num certo sentido, podemos dizer que naquele momento era fundado todo o serviço voluntário em Fátima, e era consagrado o voluntariado como modalidade primeira no acolhimento dos seus peregrinos.

O voluntariado encontra o seu sentido no âmago do cristianismo: desde logo, no próprio gesto salvador de Jesus, que “não veio para ser servido, mas para servir e dar a Sua vida para resgate de todos” (Mt 20, 28). Por várias vezes e de várias maneiras, Jesus nos convidou a esta experiência da gratuidade: o gesto do lava-pés exprime a radicalidade da vocação cristã ao serviço, com um imperativo expresso de assim nos tratarmos uns aos outros (cf. Jo 13, 1-17).

Na Igreja primitiva, percebe-se também como o serviço voluntário existiu desde o primeiro momento como modo de libertar os Apóstolos para a pregação (cf. Act 6, 1-6).

Inúmeras vidas de santos testemunham a mesma experiência: há serviços, hoje profissões reconhecidas, que começaram da entrega despojada de homens e mulheres atentos às necessidades dos seus irmãos: a saúde e a educação estão cheias desses exemplos – lembramos aqui o português São João de Deus. É difícil contar a história da cultura na Europa sem falar do contributo das ordens religiosas, que estão na origem de muitas universidades.

Voltando a Fátima, é curioso notar como, tendo o Santuário crescido como uma grande instituição onde existem vários trabalhos assalariados, o movimento voluntário é imparável. A experiência de todos os voluntários, neles se incluindo os consagrados que trabalham em Fátima, é de crescimento: surgem movimentos novos e, à volta dos novos, bem como dos mais antigos, há uma enorme adesão e procura.

Servir em Fátima, e de forma gratuita, atrai, congrega, interpela.

Há serviços que pedem a liberdade de um coração voluntário.

Uma boa parte do acolhimento dos peregrinos em Fátima tem como ponto central o testemunhar a Fé e a gratidão pela experiência feita. Reside nesse ponto a sua própria natureza, bem como a sua possibilidade de eficácia.

É difícil enunciar de forma completa todos os serviços que se prestam em Fátima e tendo Fátima como centro: uma lista completa teria que incluir desde a pessoa que assegura as limpezas, com um horário completo e um salário correspondente, até ao guia de uma peregrinação anual a pé, que, tendo a sua profissão, prepara este gesto no seu tempo livre e cumpre-o gozando férias para o efeito.

Seja qual for a natureza da tarefa, o voluntariado traz-lhe uma dimensão que é decisiva e muitas vezes visível. E também sabemos como pode ser peregrinar a um lugar santo com a orientação de um guia profissional e ficar com a sensação de que falta alguma coisa.

Hoje em dia podemos dizer, de forma muito genérica, que o Santuário tem as tarefas de carácter mais logístico e/ou quotidiano entregues a assalariados. Tudo o que tem uma componente mais espiritual e testemunhal é garantido por voluntários.

Há excepções a esta regra. Há, por exemplo, uma Congregação Religiosa – as Servas de Nossa Senhora de Fátima – a garantir um trabalho logístico de coordenação hoteleira das Casas de Retiros; há, por outro lado, o acompanhamento a órgão das celebrações litúrgicas assegurado por assalariados.

É nossa convicção, a partir das nossas observações, das conversas que tivemos com vários servidores e responsáveis do Santuário, do conhecimento da experiência do Santuário de Lourdes e da reflexão que fomos fazendo que:
 

1 – Seja qual for a condição do servidor do Santuário (assalariado ou voluntário), é importante que partilhe a Fé católica, a pertença à Igreja, a devoção a Nossa Senhora e a adesão à Mensagem de Fátima e que manifeste disponibilidade de vida para estar no Santuário.

Desde logo, para que haja um sentido nos seus gestos de acolhimento e uma sintonia com a grande tarefa missionária de Fátima.

Mas também para que o trabalho no Santuário se possa revestir de espírito de missão e gratuidade, só possível quando se partilha a finalidade última do trabalho a realizar.

 

2 – É importante pensar, com ousadia, o voluntariado em Fátima.

Algumas experiências já existentes e outras que se poderiam potenciar levam-nos a crer que é possível tirar muito maior partido do trabalho voluntário. Há pessoas válidas e com uma boa formação cristã que, por circunstâncias da sua vida, têm uma grande disponibilidade que lhes permitiria assumir em Fátima um

compromisso voluntário, mesmo numa tarefa de responsabilidade.

Procurando, avaliando, formando as pessoas, poderia ser possível ter mais serviços no Santuário em regime de voluntariado, valorizando a tal componente de missão e gratuidade que tanto pode enriquecer o

serviço ali prestado.

 

3 – Na medida do possível, deveria privilegiar-se o voluntariado, aproveitando tudo o que puder ser feito, com qualidade e regularidade, por voluntários católicos. De acordo com o que está dito acima, esse espírito de voluntariado devia presidir a todo o serviço prestado em Fátima: ou no sentido estrito da palavra ‘voluntariado’ – trabalho não remunerado –, ou no seu sentido mais lato – trabalho subsidiado ou

remunerado, realizado com um espírito de missão.

 

2. Um Serviço Permanente

Fátima é um local que congrega multidões e atrai até si muitos daqueles que d’Ele têm sede, mas a presença destes peregrinos é hoje mais distribuída e ao longo do ano.

Actualmente ganha maior significado, pela sua maior expressão quantitativa, um período concreto que medeia entre os meses de Abril e Outubro. Para além desta sazonalidade, a estatística tem confirmado regularmente outros picos de afluência.

É esta circunstância actual que, com naturalidade e quase como uma evidência, nos coloca perante um novo desafio: “Os Servitas devem estar onde e quando os peregrinos estiverem”.

Desta constatação mais imediata decorre uma outra: a maior presença de peregrinos ao longo do ano leva à necessidade de existir uma continuidade no acolhimento, isto é, o Santuário, através dos seus voluntários, deve estar preparado para poder oferecer aos peregrinos um mesmo acolhimento – quer na qualidade quer nos serviços necessários – independentemente do dia que escolherem para ir a Fátima.

Naturalmente que assegurar estas duas realidades significa ter a capacidade de fazê-lo sempre, mas adequando a nossa resposta às diferentes necessidades que resultarão dos diferentes momentos que estiverem em causa.

Esta adequação deverá ser tarefa de uma coordenação permanente que, entre outras competências, terá de definir os serviços mais necessários em cada momento e gerir as disponibilidades dos voluntários em Fátima. Mas para que possa desempenhar integralmente a sua missão, o Santuário deverá ouvi-la e chamá-la a participar na planificação da sua actividade pastoral.

 

3. Um Serviço coordenado

A experiência que fizemos nos trabalhos deste Congresso revelou um desconhecimento mútuo entre os voluntários do Santuário.

Olhamo-nos com respeito mas também com reserva. Temos distintivos diferentes, uns mais evidentes, outros mais discretos.

Alguns têm uma grande autonomia de funcionamento. Outros reportam aos responsáveis do Santuário. Mas mesmo quando somos coordenados pelos mesmos responsáveis, o entrosamento na base ou não acontece, ou acontece pontualmente, de forma espontânea.

Há voluntários que se cansam a fazer coisas que outros podiam garantir com mais facilidade. Há voluntários que têm ideias boas sobre os outros mas nunca lhes disseram. Há voluntários que têm ideias erradas sobre os outros porque foi o que sempre ouviram dizer.

Há voluntários a mais em certos sectores e a menos nos outros, mas como são de grupos diferentes não tentam ajudar-se.

Parece-nos claro que se impõe uma coordenação no sentido de aproveitar e potenciar a riqueza do trabalho voluntário em Fátima e de lhe dar o seu verdadeiro significado. Esta coordenação deve ter um conjunto de funções, de que destacamos:

     · Planificação do trabalho por forma a bem aproveitar todos os grupos de voluntários, respeitando o que é específico de cada um;

     · Assegurar a actuação coordenada dos vários grupos de voluntários;

     · Propor um tronco de formação e um calendário de actividades comuns que permitam uma integração de cada um dos grupos de voluntários e sejam sinal de uma pertença ao Santuário.

Estamos certos de que daqui necessariamente resultarão benefícios, dos quais podemos sublinhar os seguintes:

     · Maior eficiência nos serviços prestados;

     · Mais racional distribuição de tarefas;

     · Maior contacto e aproximação entre movimentos de voluntários, com o consequente quebrar de barreiras e preconceitos, que hoje são mais difíceis de evitar;

     · Possibilidade de acolher e integrar outras experiências de voluntariado ligadas a Fátima como organização de peregrinações, acompanhamento de doentes, apoio na estrada, etc;

     · Assegurar a permanência de voluntários no Santuário, durante todo a ano.

Para nós Servitas, Fátima pode tornar-se uma experiência modelar de voluntariado, dada a riqueza da tradição cristã no serviço, bem como a experiência do seguimento e da obediência, que são elementos estruturantes do método cristão e que nos podem libertar de orgulhos e protagonismos.