A génese de uma obra incontornável...

 

A génese de uma obra incontornável

- ou a  história de um sonho que aspira tornar-se realidade

 

Quando Frei Jean-François de Louvencourt visitou a Cova da Iria (12-13 de Outubro de 2009) na companhia de Frei Grégoire, tive ocasião de os acolitar na visita aos lugares habituais (Valinhos, Loca do Cabeço, igreja paroquial de Aljustrel), dado que estava então de serviço nas Informações. 

Na véspera de mais aquele 13, repleto de peregrinos a chegar de todo o lado, o tempo estava excepcionalmente luminoso e soalheiro. Tão acolhedor que Frei Jean-François jamais esqueceu os passeios que deu sozinho (e durante os quais tirou muitas das fotografias que ilustram o seu recente livro), fosse de madrugada ou já noite adentro, sob um céu maravilhosamente estrelado.

Enquanto o acompanhei na referida visita, reparei que o seu olhar tinha qualquer coisa de peculiar, parecia que estava ausente, como se estivesse absorvido no único objectivo da própria contemplação do que ia vendo. Era um olhar em que parecia que se tornavam visíveis, a cada passo seu, os passos dados pelos pastorinhos naqueles mesmos lugares. Só mais tarde pude constatar que uma vivência deste calibre não podia ser consequência de uma mera disposição esporádica. Bem pelo contrário, há muito tempo que esta contemplação vinha sendo maturada no silêncio da Abadia de Notre-Dame de Saint-Remy.

Não posso deixar de sorrir só de lembrar a lição de humildade que me foi dado viver naquele dia: eu a desfiar toda a minha informação de servita, sem imaginar que o ouvinte, sempre interessado e inquiridor, sabia mais do que tudo o que lhe pudesse relatar, sendo eu quem, afinal, muito acabaria por aprender. Com efeito, foi o que aconteceu ao traduzir para português a obra extraordinária que este monge cisterciense estava a ultimar para publicação no 10º aniversário da beatificação de Francisco e Jacinta.

Vale a pena ouvir o que o autor conta, levantando um pouco o véu da génese desta obra incontornável, como a qualifica o cardeal Saraiva Martins no prefácio exclusivo para a edição portuguesa de Francisco e Jacinta de Fátima. Duas estrelas na noite do mundo.

 

 

- Como é que um monge cisterciense francês,  a viver numa abadia belga, famosa pela cerveja que ainda hoje lá se produz (a Trappiste de Rochefort), chega até Fátima e escreve sobre os pastorinhos portugueses?

- Revejo-me efectivamente nessas diversas nacionalidades. Tanto mais que há uma quarta: sou francês por nascimento, belga por adopção, suíço pelos estudos e porque a família aí reside e português de coração pelo amor ao Francisco e à Jacinta.

Como é que comecei a escrever sobre os pastorinhos? Tudo começou nos anos em que estive em Friburgo (Suíça). Eu estava a frequentar a Universidade e fazia parte de um grupo de estudantes que discutia muito sobre certas aparições, nomeadamente as de São Damiano, mas também de Garabandal, Kerizinen e outras. Nessa altura ignorava tudo sobre aparições. Não sabia sequer distinguir as que eram ou não reconhecidas. Mas decidi informar-me, mais não seja para perceber alguma coisa do que ouvia falar. Consultei uma série de livros, mas nem conseguia chegar ao fim, a tal ponto mantinha as minhas reservas e me sentia céptico.

 

- Assim sendo, a pesquisa sobre o tema parecia ter os dias contados?

- Até que um dia, no ficheiro da biblioteca da Universidade, acervo, por sinal, excelente, deparei pela primeira vez com o nome Fátima. E disse de mim para mim: já que li sobre as outras, porque não ler também sobre estas aparições na Cova de Iria? Só que, ao contrário das leituras precedentes, neste caso fiquei imediatamente conquistado pela mensagem de Fátima e ainda mais fascinado com o Francisco e a Jacinta. Comecei logo a ler tudo o que havia disponível sobre o assunto. A bem dizer não lia, eu devorava os livros! Ainda hoje, tantos anos depois, continuo tão conquistado e maravilhado por estas crianças como no primeiro dia.

 

- Foi então que começou a ponderar escrever sobre Fátima?

- Nessa altura não me passou sequer pela cabeça que um dia haveria de escrever, nem sobre Fátima, nem sobre os pastorinhos. Para todos os efeitos, estava demasiado absorvido com os estudos. E quando ingressei na vida monástica não tive ocasião para levar a cabo uma tarefa dessas, nem durante o noviciado, nem nos anos seguintes. No entanto, este tempo de silêncio, longe de ser um tempo morto ou perdido foi um tempo precioso de maturação.

 

- Mais ou menos como a cerveja no alambique, a ganhar sabor até chegar a hora de ser degustada?

Com efeito, é uma boa comparação. Porque foi efectivamente anos mais tarde, com a aproximação da beatificação dos dois pastorinhos, que escrevi dois artigos pequenos, depois Orar 15 dias com Francisco e Jacinta de Fátima e também dois livrinhos, um de carácter geral e o outro sobre o rosário (O Rosário com Francisco e Jacinta). Nesta altura comecei também a fazer traduções da Mensagem para francês. Agora reconheço que tudo isto foi preparando esta obra, embora na altura não tivesse sido intencional da minha parte.

 

- Quando tudo parece já ter sido dito sobre a Mensagem de Fátima, o que é que o moveu a levar a cabo uma obra deste fôlego?

- Existe de facto numerosa bibliografia sobre as aparições e sobre a mensagem de Fátima, bem como biografias sobre os pastorinhos. É bom que assim seja e continue a ser. Mas não havia nada, pelo menos em França, especificamente consagrado à vida interior e à espiritualidade do Francisco e da Jacinta. Pareceu-me urgente colmatar este vazio! A minha intenção foi responder à objecção mais frequente acerca desta beatificação: o facto de se tratar de crianças. É verdade, a Jacinta tem apenas entre 6 e 7 anos na altura das aparições, que crédito é que se pode dar a crianças tão pequenas? Mas esta objecção reverte em favor das próprias crianças, uma vez que chegaram à santidade, não obstante a sua tenra idade, chegaram até aos cumes da santidade, como afirmou João Paulo II!

 

- Quer dizer que essa objecção se tornou para si um desafio em defesa da santidade nas crianças?

- É um paradoxo que faz reflectir e que constitui um apelo a todos nós. Para as crianças, evidentemente. Mas sobretudo para os adultos! Se elas, sendo crianças, chegaram tão alto nos caminhos de Deus, com maioria de razão devem chegar os mais velhos. O meu objectivo é este: o desafio da santidade, amando e dando a conhecer melhor estas duas crianças! Perguntem a quem quiserem (talvez não em Portugal, mas seguramente noutros países) quais são os grandes santos e bem-aventurados do séc. XX. As repostas serão na sua maioria João Paulo II, Madre Tereza, Pe. Pio, Maximiliano Kolbe, Edith Stein, etc. Respostas, aliás, inteiramente correctas. Só que ninguém se lembrará de referir nem o Francisco nem a Jacinta.

 

- Então o objectivo específico desta sua obra vai mais longe, ou até mais alto?

- É inegável que o Francisco e a Jacinta alteraram o rumo da história, na medida em que foram as duas primeiras crianças não mártires beatificadas em 2000 anos de história da Igreja. Eles alcançaram os cumes da santidade num curto espaço de tempo. Não será imperativo contá-los entre o número dos grandes santos de hoje em dia? Para que isso aconteça, é preciso dá-los cada vez melhor a conhecer, é necessário que sejam amados cada vez mais. Há que dar graças pelo testemunho da sua vida, pela sua espiritualidade tão tocante e pela sua incessante intercessão em favor de cada um de nós, da Igreja (do Santo Padre) e do mundo.

 

- Quer dizer que nós podemos contribuir para a canonização de Francisco e Jacinta?

- É necessário contribuir para esse dia da sua canonização. Porque se não rezamos, ou se rezamos pouco, nada acontecerá. Mas se rezarmos aos beatos com uma confiança sem limites, se os amarmos como eles tanto nos amam, a sua canonização será um dom que se impõe por si. Quem sabe se em 2017 isso não será plenamente possível?

 

- O objectivo último desta sua obra seria dar também um contributo para essa causa?

- É preciso esclarecer que referi repetidamente o processo de beatificação, mas nunca mencionei directa ou explicitamente a canonização futura do Francisco e da Jacinta. No entanto, tocou-me particularmente constatar que o cardeal José Saraiva Martins, no prefácio notável que se dignou escrever para a edição portuguesa, se apercebeu que essa intenção estava subjacente a todo o livro. Nunca poderei agradecer suficientemente as suas palavras finais: «Esta obra, enfim, constitui um contributo incontornável para dar mais um passo na direcção do que ainda falta fazer para que a missão profética de Fátima esteja concluída: rezar pela canonização de Francisco e Jacinta, aquelas crianças que se ofereceram a Deus e se deixaram moldar pelo mesmo fogo do amor que arde no coração da Mãe do Céu.» 

Mas o que é que é incontornável? A obra? Não será antes o objectivo que ela tenta alcançar? Porque «o que ainda falta», o que é indispensável e cada vez mais essencial é rezar pela canonização, desejando-a o mais brevemente possível!

 

- Esse seu objectivo é afinal o mesmo da Postulação?

- Com efeito, e tanto assim é que a Irmã Ângela, a actual Postuladora, contribuiu de modo decisivo aceitando assumir a responsabilidade de editar a versão portuguesa, em colaboração com o Padre Valentim, director da Gráfica de Coimbra. Todos parecem, portanto, convergir num objectivo comum: o cardeal José Saraiva Martins, a Postuladora, o Reitor do Santuário que anunciou na Basílica a edição da obra no próprio dia da festividade dos Beatos, os Servitas de Fátima e tantas outras boas vontades. Afinal, o que é que impede que esse objectivo “a canonização do Francisco e da Jacinta” venha a coroar o centenário das aparições? Será sonho? Mas um sonho que aspira tornar-se realidade!
 
São Barreira de Sousa
Servita

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